A Associação Amparo Maternal

Fundação

Conhecer a história da Associação Amparo Maternal, ou simplesmente “Amparo Maternal” como a Instituição é tradicionalmente conhecida, é uma agradável lição de humanidade, superação, competência e, fundamentalmente, de bons princípios.

Na década de 1930, um período no qual a gravidez indesejada ou não planejada era mal vista pela sociedade, era comum a exclusão de mães solteiras, de mulheres pobres, mestiças e negras, e o abandono de gestantes dentro desses perfis por suas famílias.

Dr. Álvaro Guimarães Filho

Madre Marie Domineuc

Dom José Gaspar D'Afonseca e Silva

E foi da concepção de que nenhuma parturiente na cidade de São Paulo deveria ficar sem um local adequado para dar à luz que um grupo de pessoas lideradas pela Madre franciscana Marie Domineuc, pelo médico obstetra Dr. Álvaro Guimarães Filho e pelo então Arcebispo de São Paulo, Dom José Gaspar D’Affonseca e Silva, fundaram a Associação Amparo Maternal, em 20 de agosto de 1939.

Com um serviço de atendimento a gestantes em situação de vulnerabilidade social e o lema de “Nunca Recusar Ninguém”, a entidade chegou a ser pejorativamente chamada de Casa da Mãe Solteira. A cidade de São Paulo tinha, então, cerca de um milhão de habitantes, sua economia, baseada na cafeicultura, estava em declínio, e a vinda, em curto prazo, de pessoas do interior e de outros estados agravava a falta de infraestrutura urbana fazendo com que um número cada vez maior de gestantes vivesse pelas ruas da cidade. Sensibilizados por essas cenas, a Madre, o Arcebispo e o Doutor começaram seu trabalho alugando casas onde as gestantes ficavam até terem o bebê e conseguirem recursos para sua sobrevivência.

São Paulo crescia, e o Amparo Maternal também crescia em importância para um número cada vez maior de grávidas carentes. Iniciou-se, então, um trabalho junto à prefeitura com o intuito de se providenciar uma construção para albergar todo tipo de gestante: as sem-teto, as doentes, as migrantes e qualquer outra mulher sem condições financeiras. Em consequência das intolerâncias de uma população de conceitos tradicionais e duros, veículos de comunicação traduziram negativamente o trabalho social iniciado pela Instituição, exigindo o fim de seu funcionamento.

Entretanto, superadas as primeiras dificuldades, a organização conseguiu, em 1945, votos da Câmara Municipal para o início das obras das instalações do Amparo Maternal na Rua Loefgren, na Vila Clementino. Foi do próprio prefeito Dr. Prestes Maia o projeto da construção do prédio na diagonal, com a face voltada para o nascer do sol – uma orientação da engenharia para que a enorme varanda frontal se tornasse um local onde as mães pudessem caminhar com seus recém-nascidos e receber vitaminas provenientes dos raios solares.

Durante a construção, nas décadas de 1950 e 1960, outras barreiras foram enfrentadas pelos administradores da entidade como a falta de recursos, atrasos nas obras, o ainda intenso preconceito da população e um custoso incêndio, em 1963, já em uma fase bem adiantada da construção. Finalmente, em 1964, depois de dezenove longos anos, o prédio que até hoje abriga a Maternidade ficou pronto, sendo inaugurado pelo governador Dr. Adhemar de Barros.

Foto da Construção do Amparo Maternal

A princípio, o plano de construção não previa Maternidade, mas sim um Alojamento Social, com salas de aula e cursos profissionalizantes, onde as mães podiam morar nos quartos e cuidar de seus filhos. Porém, com as gestantes desprivilegiadas sendo recusadas pelos hospitais de São Paulo, foi necessário estruturar a área hospitalar, que fez do Amparo Maternal a única entidade existente no Brasil e na América Latina que, além da Maternidade, oferecia alojamento para as gestantes que não tinham lar.

No início da década de 1970, enquanto as Maternidades municipais passavam por reformas e restringiam o atendimento em função do sistema de saúde público que oferecia atendimento somente para os trabalhadores que tinham carteira assinada, no Amparo Maternal, nasciam, quase que ininterruptamente, 60 crianças todos os dias. Houve dias em que nasceram 125 crianças em 24 horas, como na véspera do Natal de 1973.

Estruturação e gestão

Em 1974, com o objetivo de apoiar as atividades desenvolvidas pela Instituição, a Congregação das Irmãs Vicentinas de Gysegem assume a responsabilidade pela gestão da Associação Amparo Maternal, sob a liderança da Irmã Anita Gomes, permanecendo por quase 40 anos na Instituição e contribuindo para o crescimento e permanente estruturação das atividades voltadas à assistência social e Maternidade. O ano de 1978 marca o início da construção de um novo prédio, no mesmo terreno, para distinguir a Maternidade do Alojamento Social. A obra foi concluída em 1983 e o prédio abriga, até hoje, o Centro de Acolhida para Gestantes, Mães e Bebês com acesso pela Rua Napoleão de Barros, 1035.

Na década de 1980, contando sempre com o apoio de outras instituições, do Governo e da comunidade local que começava a desenvolver um olhar solidário para as questões sociais, várias inovações são implantadas, tanto na Maternidade quanto no Alojamento Social. Entre elas, concluem-se as obras de um Centro Cirúrgico; inaugura-se a Área Social; introduz-se a padaria para consumo interno; instala-se o Departamento de Farmacologia e, consolida-se, em 1985, o apoio de voluntárias que, além de se mobilizarem em prol do Bazar do Amparo Maternal, auxiliavam também as mães e os recém-nascidos na Maternidade e no Alojamento Social.

Ainda em 1985, as Irmãs Vicentinas de Gysegem se mobilizaram para apoiar as mães que passavam pela Instituição e criaram a Pastoral da Moradia, proporcionando moradia às famílias carentes, que na década de 90 passou a ser chamada de Sociedade Pró-Moradia São Vicente de Paulo.

A década também foi marcada por grandes mudanças políticas no Brasil e avanços na área da saúde com a Constituição Federal Brasileira de 1988 que instituiu o Sistema Único de Saúde – SUS, do qual a Maternidade do Amparo Maternal passa a fazer parte. Já na década de 1990, durante a parceria com a Escola Paulista de Medicina (EPM), a Instituição se solidifica ainda mais como modelo na saúde ao criar a Unidade Ginecológica, Ambulatório, Cozinha, Unidades de Enfermagem, Escritórios e Recepção, além de receber a doação uma ambulância e três leitos de Unidade de Terapia Intensiva Infantil (UTI NEONATAL). No final dos anos 90, encerra-se a longa e inestimável parceria com a EPM, a quem a entidade sempre será grata.

Ao ganhar mais notoriedade de órgãos públicos, nos anos 2000, a Maternidade do Amparo Maternal passa a realizar o teste instantâneo de HIV em todas as parturientes atendidas, inclui nas suas dependências uma filial do 21º Cartório de Saúde para facilitar o registro de bebês nascidos dentro da Instituição, cria uma sala para vacinação e propaga, então, a importância do aleitamento materno nos primeiros 180 dias de vida.

Em 2007, a Associação Amparo Maternal passa a contar com o apoio administrativo da Associação Congregação de Santa Catarina (ACSC). Em 2008, é firmado um Termo de Colaboração entre as duas instituições e a ACSC assume a gestão da Maternidade, permanecendo com o apoio administrativo ao Alojamento Social.

Nesta nova configuração, a Maternidade passa a ser conhecida como Hospital Amparo Maternal enquanto o Alojamento Social estabelece convênio com a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social – SMADS SP, passando a se chamar Centro de Acolhida Amparo Maternal – Pavilhão Irmã Leoni, sendo tipificado como Centro de Acolhida para Gestantes, Mães e Bebês.

Com a colaboração da ACSC, grandes melhorias são promovidas na estrutura do Centro de Acolhida. O período marca a consolidação da Instituição como referência no País em serviço de alta complexidade para gestantes em situação de vulnerabilidade social, cuidando de conviventes e seus bebês que recebem suporte durante todo o período de acolhimento na Instituição.

Novo ciclo

O ano de 2021 marca o início de uma nova fase para a Associação Amparo Maternal. Encerra-se, com gratidão e companheirismo, a parceria de mais de uma década com a ACSC. É, então, celebrado o Termo de Colaboração entre o Hospital Amparo Maternal, a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo e a Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM) que, em 01 de fevereiro de 2021, passa a realizar a gestão da Maternidade a partir de um novo modelo, de forma independente do Centro de Acolhida.

A Associação Amparo Maternal permanece à frente da gestão do Centro de Acolhida para Gestantes, Mães e Bebês em convênio com a SMADS, mantendo sua missão de acolher a gestante de forma humanizada, prestando assistência social e à saúde materno-infantil. Contar a história do Amparo Maternal é falar de pessoas e instituições que, até os dias de hoje, defendem e apoiam com determinação a causa das gestantes, mães e seus filhos em situação de vulnerabilidade social.

O legado, iniciado em 1939 por Madre Marie Domineuc, se perpetua a cada nova mulher recebida no Centro de Acolhida, a cada nova política estabelecida em favor de gestantes, mães e filhos desamparados, a cada novo doador e parceiro que, de forma genuína, abraça sua causa e generosamente contribui com a manutenção dessa Casa, cujo nome traduz com perfeição a sua vocação: Amparo Maternal.

Referências:

MACHADO, Marcelle Branca. Terceiro Setor: Estruturação do Marketing do Amparo Maternal para o Desenvolvimento da Captação de Recursos e Visibilidade da Instituição. São Paulo: Pós-Graduação Lato-Sensu em Gestão de Marketing da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), 2016.

MAGINI, Roberto. Nunca Recusar Ninguém. As muitas vidas da maior Maternidade de assistência pública do país. São Paulo: Telabrazil, 2010.

TADEU, Paulo. Ser mãe é tudo de bom. A Maternidade na visão de mães brasileiras famosas. São Paulo: Matrix, 2008.

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